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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O DIA EM QUE MORRI



Nasci em uma pacata cidade interiorana no nordeste do estado de São Paulo. Conhecida como Mococa. Como ocorre em toda cidade pequena, pude sentir na pele o que vem a ser o provincianismo. Minha mamãe querida desde muito cedo me ensinara o caminho das letras. Matriculando-me em escolas públicas e acompanhando meus estudos. Cobrando as tarefas diárias intermináveis enviadas pelas professoras.
Com 12 anos de idade aprendi o meu primeiro oficio com papai. Ajudante de pintor de parede. Trabalhava meio período e estudava à tarde. Cresci no bairro da Mocoquinha, onde ainda tenho amigos de infância e de parte da adolescência, tenho um profundo carinho pelos moradores de lá. Minha casa situava-se nos fundos da casa de vovó, uma doce pessoa que, recentemente, completara 94 anos de idade. Vendia seus doces de leite invejáveis no bairro. Quando acordava brava, chegava ao ponto de chamar Deus e o Diabo na ponta da faca!
Minhas férias escolares sempre passei no distrito de Milagres – MG, na casa de minha outra vovó. Andava a cavalo, nadava no rio das areias, invadia pomares dos vizinhos sem ser autorizado, tomava refrigerante de uma maneira peculiar, através de um furinho na tampinha para tomar bem devagar e demorar acabar. O café da manhã aprendi com vovô, que comia farinha de milho com leite de vaca. Bebia garapa, corria atrás de vagalumes na escuridão e escutava histórias de meter medo sobre o período da quaresma, que diziam que não se poderia sair à noite. Mas eu adorava a quaresma sabia? Por um único motivo: vovó dizia que, na quaresma, não podia bater em crianças, mas no sábado de aleluia, sim.
Sempre fui um menino levado, que sentava nas carteiras dos fundos da sala de aula. Recordo do fato que, para eu não falar com os outros alunos de minha sala, atrapalhando sua atenção à aula, me isolaram na frente de todos. Mesmo assim eu cantarolava sozinho. Não levava a sério os estudos. No entanto quando prestei o vestibulinho para a escola “Industrial”, por incrível que pareça, passei. Nessa instituição conclui o ensino médio e técnico que eram concomitantes. Terminara o ensino médio com o sonho de ingressar em uma Universidade Pública.
Trabalhei como pintor de paredes, segurança noturno, fazia e vendia artesanatos, tocava em bandas de Punk Rock, estampava camisetas, vendedor de roupas, até conseguir meu primeiro emprego de vendedor em um comércio da cidade, este com carteira registrada, depois ainda trabalhei em outra loja. Neste período continuei meus estudos, fazendo espanhol em um sindicato, e ingressei no ensino técnico no curso Turismo, assim me reaproximei do ambiente escolar, pois não tinha condições de pagar um cursinho.
Depois de muita insistência em três anos consecutivos, eu consegui finalmente ingressar na Universidade Estadual Paulista campus Franca. Pedi demissão de meu emprego para viver meu sonho que buscava há tempos. Fui bolsista durante três anos na faculdade, tinha de ter ótimas notas e não faltar às aulas, caso contrário, perderia o auxílio. Afirmo com toda certeza do mundo: foi o melhor período de minha vida, de amadurecimento, superação de dificuldades, das saudades da família e amigos, formação de novo círculo de amizades, que permanecem até os dias atuais e, principalmente, pelo conhecimento adquirido, tanto dentro da universidade assim como na vida cotidiana fora dela. Fiz viagens com a faculdade a congressos que me permitiram conhecer boa parte do Brasil, e vivenciar outras realidades.
Se é que existiu um dia mais feliz de todos em minha vida, este foi o dia de minha formatura. Estava estampada no rosto de meus pais a alegria, satisfação e o orgulho por aquela conquista, na qual eles tanto me apoiaram para que fosse atingida.
Ficou a saudade dos amigos, cada qual seguiu seu caminho, para lugares distantes. Permaneci em Franca de 2004 a 2009. Depois de me formar ainda lecionei por 2 anos em escolas públicas, fui professor de um cursinho popular da UNESP, voluntário sem remuneração. Consegui concluir um curso de pós-graduação na mesma instituição.
Depois de todo este tempo envolvido no meio acadêmico e em sala de aula, resolvi realizar o que considero a coisa mais incrível de minha vida. Viajar pela América Latina de carona com muito pouco dinheiro. Conheci quase toda a Bolívia: Lago Titicaca e Isla Del Sol, escalei a mais de 5620 m de altura na Cordilheira dos Andes. Boa parte do Peru, incluindo Puno, a capital folclórica deste país, Cusco, a capital Inca e Machu Picchu, um lugar simplesmente indescritível. Também não poderia deixar de conhecer o Chile e o Deserto do Atacama, o local mais árido do mundo. Banhei-me no Oceano pacifico, senti temperaturas que variaram abaixo de –20ºC, a +45ºC. Depois de passado um ano de férias merecidas andando pelo Brasil e América Latina, eu voltei a minha cidade natal, mas não seria para ficar para sempre.
Meus familiares necessitavam de minha presença para resolver coisas pessoais. Voltei meus estudos para as provas de concursos, retomei o estudo de línguas autodidata. Fiquei mais próximo de familiares e amigos. Só que havia esquecido o funcionamento das coisas por aqui. Pois ficara por 6 anos vivendo outra realidade, distinta em uma série de fatores. Literalmente depois e tomar vários banhos de multidões cosmopolitas não me lembrava do marasmo provinciano da terra natal.
Tentei transplantar idéias que conheci e vivenciei em outros lugares. Busquei à minha maneira, alguma forma de transformar a realidade da cidade. Só não sabia que ao ser reconhecido por poucos, muito poucos mesmo, eu estaria gerando sensações de mal estar, ciúmes, inveja e seja lá qual for à palavra para descrever o sentimento que ocorrera em muitas pessoas. Busquei entender o porquê, não consegui, talvez seja porque elas por aqui ficaram e em nada mudaram. Enquanto eu, o “Outsider” voltei com intuito de transformação o que foi confundido com “vontade de aparecer”.
De certa forma fui incompreendido tanto pelas elites e pelos mais abastados. Fui julgado e condenado pela esquerda assim como pela direita. Dessa forma fui condenado ao esquecimento, fui boicotado e tive de tomar diversos cuidados, pois ambos os lados queriam a minha cabeça, creio que o fato de sempre dizer o que penso. Ou ainda pelo fato de eu ter conseguido realizar meus sonhos e ter vivido uma vida íntegra e feliz. Por onde quer que eu tenha passado fiz amizades de valor inestimável.
Aprendi a não ter apego a bens materiais, preferi conhecer lugares à comprar um carro, escolhi pagar cursos de línguas à comprar computadores, consegui me desmaterializar.

Charge em alusão ao filme O sétimo selo.Bergman.1957
É chegado meu dia. O dia amanhece frio, cinza e triste. Chegara a minha hora. O tão esperado encontro com quem jamais queremos nos encontrar. Ela já estava a minha espera há tempos, nunca tive medo dela, sempre a encarei com naturalidade.
Antes disso, um velório simples, sem muitas cerimônias e honras, nada de flores, nem faixas, conforme eu havia pedido já previamente a minha família e amigos. Tocou-se muita música e, do lado de fora, servido cachaça.
 Também não percebeu-se choros, pelo contrário, muitas gargalhadas foram dadas com a lembrança de minha pessoa: engraçada, polêmica, provocadora, contraditória, encantadora, fiel, leal e amiga. Amigos vieram de muito longe para prestar suas últimas homenagens. Centenas de pessoas passaram pelo meu corpo, claro que a esmagadora maioria, para se certificar de que eu estava realmente morto.
Durante o velório entrara uma pessoa vestida toda de preto e encapuzada, esta descarregou uma arma em meu cadáver em exposição. Queria  certificar-se que eu estava morto. Ou seja, a morte viera me visitar duas vezes, ela também teve sentimento de repulsa por mim, pelo fato de ter vivido uma vida inteira à minha maneira, buscando ser feliz, sem invejar o próximo e muito menos desejar o mau a qualquer pessoa.
No enterro, assim como durante minha curta vida, não faltaram mãos para me empurrar para baixo. Misturado a terra havia centenas de quilos de sal marinho. Pois mesmo com a certeza de que eu estava realmente morto, depois de passar por duas autópsias e ficar sendo velado 24 horas, queriam ter a certeza de que ali não iria nascer nenhum ser vivo. Teve até um abaixo assinado on-line a favor de meu corpo ser cremado e da não doação meus órgãos.

Na lápide de pedra, bem humilde, esta estampada a seguinte frase: AQUI JAZ UM HOMEM QUE MORRERA REALIZADO E FELIZ.
Acontece que todo o ódio, rancor, ganância, falsidade, inveja e mesquinharia, ainda perpetuam nos corações mais infelizes e amargurados nos mais diversos cantos da cidade, em todas as classes sociais e políticas. E somente agora que me mataram por duas vezes pude entender que a principal regra de convivência, para parte da população desta cidade em que nasci é: “É PROIBIDO SER FELIZ”.  Eu ousei desrespeitá-la sem saber e paguei o preço. Nada mais justo, para eles é claro.
É preferível ter uma vida curta e FELIZ do que uma vida longa e repleta de INFELICIDADE.

Gustavo de Souza Pinto.  FOI (Técnico em Desenho de Arquitetura, Técnico em Turismo, Bacharel, licenciado e Pós-graduado em História. UNESP-Franca)
Contato: clioprojetosculturais@gmail.com

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Bruno Giorgi Parte II


No ano de 1939, ano este da segunda guerra mundial. Bruno Giorgi sua esposa Giuliana e seu irmão Cesare retornam a habitar no Brasil e desta vez na cidade de São Paulo; onde continua a cultivar inúmeras amizades. Dois anos depois se separa de Giuliana Segre, monta um ateliê, fica amigo de Di Cavalcanti e Mário de Andrade que impulsiona a sua carreira através de sua enorme influencia dentro do governo da época.


Foto 1: Montando a obra Meteoro em Brasilia.1967.Coleção Leontina Giorgi, Rio de Janeiro



Frase: Gosto dos monumentos porque a obra de arte precisa ser vista por todos. Essa é a verdadeira função da arte, principalmente da escultura. Bruno Giorgi,Veja, Nov.1978)


Recebe o maior reconhecimento de sua carreira no ano de 1965, sendo considerado pela critica mundial o maior escultor brasileiro do século XX. Neste ano se muda para a região de Carrara na Itália para esculpir o meteoro que ficaria pronto dois anos depois e foi inaugurado em Brasília, fica no espelho d’água do palácio do Itamarati e é símbolo das relações exteriores do Brasil.



Foto 2: Foto atual do Meteoro no espelho d'água. Brasilia-DF

Fonte: http://www.skyscrapcity.com

Assim como também construiu a obra de arte “Os guerreiros”, mais tarde rebatizada popularmente de “Os candangos” em homenagem aos trabalhadores migrantes que construíram a capital federal.


Foto 3: Os Candangos. 1968.Bronze.Coleção Leontina Giorgi, Rio de Janeiro


Frase: "Não esculpo em madeira ou outros materiais perecíveis porque eles lembram idéias pereciveis... (Bruno Giorgi.A Tribuna de Santos, Set. 1974)



Fonte: Grinberg, Piedade Epstein. Bruno Giorgi 105-1993. Metalivros. São paulo, 2001.


Gustavo de Souza Pinto

(Bacharel, licenciado e Pós-graduado em História. UNESP-Franca)

http://lattes.cnpq.br/6467391538040938

Contato: clioprojetosculturais@gmail.com

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Bruno Giorgi Parte I


“O filho ilustre de Mococa mais reconhecido no mundo.”

Nasce em Mococa em 1905 no Hotel Terraço, o menino que mais tarde levaria consigo o nome de Mococa por onde quer que passara. Permanece pouquíssimo tempo na cidade, filho de uma família Italiana de camponeses remediados. O pai, Ferdinando Giorgi, em 1907 se torna cônsul do governo italiano e passa a morar no litoral paulista na cidade de Santos. Em meados de 1908 mudam-se para a cidade de Bahia Blanca, província de Buenos Aires na Argentina. Por volta de 1910 retornando a Itália voltando a habitar a cidade de Cascinella na região da Toscana. Em 1913 se muda para Roma para dar inicio a seus estudos.


Foto 1: Bruno Giorgi, Ateliê em Carrara (Itália) 1970. Coleção Leontina Giorgi, Rio de Janeiro.

Frase: A escultura é a arte do silêncio. Não existe ninguém mais solitário que o escultor... ( Bruno Giorgi, O Jornal Rio de Janeiro. 14 de agosto de 1973)


Em 1925 com a morte de seu pai, passa a integrar a militância política juntando-se a seu irmão Cesare na luta anti-fascista. Tanto que em 1930 muda-se para Paris, capital da França, continuando a conspiração contra Mussolini. Um ano depois parte para Budapeste, capital da Hungria. Ao retornar a Itália no mesmo ano foi preso e passou por diversas prisões da Itália. Inclusive conhecendo Antonio Gramsci, um dos maiores pensadores da esquerda mundial do século XX. Assim como o Anarquista Stoka e dentre outros presos políticos. Ficara preso de 1931 a 1935, casa-se com Giuliana Segre, filha de Marco Segre e consegue assim asilo político por ser estrangeiro. Em 1936 retornando ao Brasil passa a habitar em São Paulo capital. Conhece Alfredo Volpi o maior pintor modernista brasileiro do século XX, ao qual mantém amizade por toda a sua vida. Volpi o presenteia com a seguinte Obra:

Foto 2: Bruno Giorgi, 1942. Temera sobre cartão. Alfredo Volpi. Coleção Leontina Giorgi, Rio de Janeiro.

Frase:“A solidão é perigosa, pois a gente vai gostando dela cada vez mais." Bruno Giorgi.


Em 1937, com seu espírito anarquista inquieto retorna a Europa e desta vez passa a habitar Marselha, a cidade mais antiga da França. Estava rumo à Espanha para lutar ao lado do irmão Cesare na guerra civil espanhola combatendo o ditador Francisco Franco. Porém como já havia sido preso na Itália, acaba por se manter em Paris com um ateliê de fachada auxiliando os combatentes anti-fascistas a adentrar na Espanha.

Foto 3: Bruno Giorgi, 1935. Auto-Retrato. Lápis.Coleção Leontina Giorgi, Rio de Janeiro.


Frase: "Queria liquidar o DUCE sozinho e falei tanto nesse assunto que acabei sendo preso." (Revista Visão, 1977).


Fonte: Grinberg, Piedade Epstein. Bruno Giorgi 105-1993. Metalivros. São paulo, 2001.


Gustavo de Souza Pinto

(Bacharel, licenciado e Pós-graduado em História. UNESP-Franca)

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

A História do Palhaço Pipoca

A Epopéia do Palhaço Pipoca


Antero Xavier, identidade secreta do personagem popularmente conhecido como Palhaço Pipoca. Nos conhecemos ainda em minha adolescência, quando cursávamos o ensino médio técnico em Desenho de Arquitetura na Escola Industrial, hoje E.T.E Francisco Garcia. Antero. Não teve oportunidade de estudar quando jovem, com muito esforço conseguiu cursar o supletivo e passar no processo seletivo do Ensino técnico.
Mas sua trajetória vem de bem antes, artista autodidata, um escultor em madeira de extrema habilidade, produzia verdadeiras obras de artes e nem ao menos era reconhecido como tal. Certa vez, após diversas tentativas em expor suas obras no museu municipal, sem êxito, chamou a mídia, colocando a boca no trombone.
- Estou tentando mostrar as obras de arte que faço e não me sedem espaço, se não me fornecerem ao menos isso num prazo de 30 dias, eu vou queimar todas em praça publica, pois é isso que querem que eu faça.
O povo ficou chocado após tamanho ato de audácia e coragem. Eles resolveram conceder o espaço para sua amostra de esculturas esculpidas em madeira, um verdadeiro ecletismo típico da arte moderna contemporânea.
Recordo como se fosse ontem de quando fui até sua casa, localizada na rua Pedro Sales Molina, no bairro popular Francisco Garófalo, (mais conhecido como Guerrolandia de baixo). Antero morava sozinho em um trailer, estilo daqueles típicos americanos que vemos em filmes, este repleto de esculturas e também de imagens de santos. Ele não era um beato fanático, mas visava seu ganha pão, pois trabalhava como restaurador de imagens e esculturas de gesso. A profissão de restaurador era apenas uma das muitas profissões as quais se submetia para conseguir sobreviver, pois já trabalhou de pintor letrista, fabricou bancos de concreto para praças e por ai foi traçando sua carreira.
Além de artista plástico também era poeta marginal, escrevendo centenas de poesias em todos os imagináveis tipos de papeis possíveis. De uma inspiração invejável, com muita batalha, conseguiu publicar no final da década de 1990 um livro com algumas destas poesias, que mesmo sendo com uma baixa tiragem, conseguiu fazer seu lançamento na Biblioteca Municipal.
Mesmo antes de se tornar Palhaço Pipoca, Antero já era naturalmente divertido. O curso da E.T.E Francisco Garcia funcionava no primeiro andar do prédio fronte a praça principal da cidade, a tão conhecida praça da matriz, que proporcionava um visão privilegiada da fonte na qual se situa uma escultura de Bruno Giorgi. Depois de pedidos incessantes para sair e tomar lanche, Antero resolveu comprar seu lanche, jogou o dinheiro para o rapaz que trabalhava no carrinho de cachorro-quente em frente a escola. Todavia não tinha como jogar o lanche e o refrigerante para cima e, de improviso, pegou um pano que servia para limpeza da sala de aula fazendo diversos retalhos, com inúmeros nós conseguiu criar uma espécie de corda, baixou esta e içou o lanche e logo depois a garrafa de refrigerante, isto durante a aula de desenho técnico. Para seu azar estávamos bem embaixo da diretoria e a vice-diretora foi testemunha ocular do fato. No mesmo instante, ela subiu as escadarias e foi até a nossa sala, para averiguar o fato. Rapidamente ela foi culpando os alunos mais visados da sala. Porém não tinha como provar os culpados, pois a corda, prova do crime não estava mais no local. Após um verdadeiro sermão de quase uma hora e de intensas ameaças de suspender a sala toda por uma semana, caso não entregássemos o responsável por tal façanha, a sala permanecia em extremo silêncio. A tortura psicológica prosseguiu por mais alguns minutos, até que tiveram a idéia de fazer a denuncia anônima por meio de bilhetinhos, então chegou o momento em que Antero levanta-se e diz:
- Foi eu professora.
A vice-diretora chocada responde:
- Mas você! Eu jamais esperava isso, pensei que fosse qualquer outra pessoa, você só pode estar brincando né. Ou esta assumindo a culpa de algum colega?
A sala toda não se agüentou e colocou pra fora toda a risada engasgada durante o sermão e seção de tortura psicológica de mais de uma hora.
Pedidos de silêncio não cessaram as risadas que continuaram mesmo baixinho nos cantos, e vice-diretora continuou seu sermão agora em especifico ao Antero.
- Você o mais velho da sala, que deveria servir de exemplo para todos os seus colegas, me faz umas destas. Que decepção, você não tem vergonha?
- Tenho, mas.
Recordo que alguns alunos até disseram:
- Isso é para a senhora aprender a não nos julgar pela aparência e sempre ficar colocando a culpa nos mesmos.
Sua carreira de palhaço inicia-se neste mesmo período, pois seus empregos formais não traziam ganhos suficientes, como a cidade não tinha nenhum palhaço com uma visão empreendedora resolveu iniciar sua carreira.
Como todas as outras, sua nova carreira necessitava de capital inicial e de ótimas idéias para que o negócio prosperasse, pois é assim que funcionam as regras do sistema capitalista. Boas idéias eram o que não faltavam. Arrumou algumas roupas, fez as devidas reformas e aos poucos foi criando o guarda roupa do Palhaço Pipoca. Criou uns panfletos e distribuiu pela cidade e foi conseguindo ganhar seu dinheiro e também se tornar popular na cidade.
Foi neste mesmo período em que aconteceu um dos fatos mais hilários de sua carreira de palhaço. O dólar encontrava-se em baixa, no mesmo valor do Real e assim, conhecíamos a ascensão das famosas lojas de R$1,99. Foi inaugurada uma destas na esquina da rua Pernambuco, com a rua Maranhão, no bairro da Vila Santa Rosa, onde ocorre até os dias atuais a tradicional feira de Domingo. Eis que o Palhaço Pipoca fora convidado para animar a inauguração deste estabelecimento comercial, que era novidade para o povo da periferia. Serviram algodão doce, pipocas, colocaram carro de som e tudo mais e lá estava o nosso herói das gargalhadas. Brincando com a criançada pobre da periferia e tirando fotos com os filhos da burguesia em seu colo. Acontece que a criançada é sapeca e estavam com algumas bombinhas e traques soltando ali por perto e por essa ele não esperava. Durante uma das fotos, um moleque levado resolveu colocar um traque dentro de seu enorme sapato. Sobre o fato ele relatou o seguinte:
- Foi um Deus nos acuda, viu. Eu lá com a criança no colo, o pai com a câmera na mão se posicionando para fotografar e de repente aparece o moleque com o traque e joga dentro do meu sapato. Nossa, eu não sabia se entregava a criança ao pai, se balançava a perna, se corria ou se ficava parado. Até que o traque explodiu dentro do meu pé, não sei nem como fiquei na foto, e o pior que todos os presentes acharam que eu estava fazendo palhaçada.
Pipoca teve serias queimaduras de 3° grau e teve de ficar semanas andando calcando em um pé, chinelo; no outro, sapato. Sobre, o fato recordo-me que até o ironizei dizendo o seguinte:
- Dizem que alegria de palhaço é ver o circo pegar fogo, a alegria de criança é ver o palhaço pegar fogo. Porque você não faz umas apresentações pirofágicas, vai ser um sucesso.
- Você faz piada porque não foi com você, né!
- Isso é para você aprender que a profissão de palhaço é algo insalubre, e que tem que ganhar mais pelos serviços prestados.
- Sabe que você tem razão. Tenho de cobrar mais caro.
Só o trabalho de palhaço também não era suficiente para sobreviver, então Pipoca resolve entrar para o ramo das propagandas volantes. Poréme ele não possuía automóvel nem ao menos motocicleta para efetuar este trabalho. Por isso resolveu copiar a autêntica idéia de um ex-candidato a vereador, que fazia propaganda eleitoral utilizando uma bicicleta com uma bateria de carro e um toca fitas.
Desta forma, Pipoca projetou sua própria bicicleta pintada de diversas cores, que tinha um guidom enorme e no seu alto uma cabeça de boi, na garupa estavam adaptados a bateria de carro, o toca fitas K7 e os autofalantes. Assim, foi aos poucos conquistando seus clientes circulando principalmente pelo centro da cidade, fazendo propaganda e espalhando por onde quer que passasse muita alegria, sem pedir nada em troca. Se tivesse muito sol, lá estava ele debaixo daquela roupa quente. Se fizesse frio, também com seu casaco estilizado. Se chovesse, engana-se você que ele não estivesse pelo centro com sua bicicleta encostada na praça do Rosário, debaixo de um guarda-chuva colorido e com certeza espalhando diversão em todas as estações do ano. Todo dia, pedalando quilômetros, soltando com toda alegria sua frase que se tornou um chavão em Mococa.
- Oi tudo bem colega? Um abraço, um beijo e um queijo!
Jamais negou atenção a quem quer que fosse, não fazia distinção de classe social, tratava todos da mesma maneira. Sempre alegre e sorridente, mesmo que a vida assim não fosse, fazia do personagem Palhaço Pipoca parte da sua vida, ou melhor, tomando toda a vida. Para complementar o orçamento, resolveu comprar um carrinho tipo estes de parquinhos infantis, para trabalhar aos sábados e domingos na praça da centenária igreja matriz. Lá estava ele empurrando o carrinho em volta da praça com as crianças dentro e com sua voz fina e estridente guiando a alegria e arrancando gargalhadas da criançada e porque não dos adultos também. Desta forma, o Palhaço Pipoca se apropriou da vida de Antero, e este se encontrou envolvido completamente com o personagem que havia criado, pois a maior parte do tempo estava fantasiado e trabalhando inclusive aos sábados e domingos a noite, seja na praça da matriz ou nas festinhas de aniversário que fomentava sua verba de sobrevivência.
Era praticamente impossível vir a Mococa e não conhecer o Palhaço Pipoca, ele era como um deus - onipresente em todos os cantos da cidade. Na saída da missa dominical noturna, como de costume, o povo leva os filhos à praça para brincar e ouvir a banda tocar melodias clássicas e populares. Lá está ele empurrando o carrinho, tirando fotos e nunca cobrando direitos de imagem. Tamanha era sua paixão pela música, que até chegou a entrar em estúdio e gravar canções para a garotada, um verdadeiro apaixonado pelas artes. Tanto que ingressou no curso de artes plásticas em uma faculdade de uma cidade vizinha e além de trabalhar o dia todo, a noite viajava para terminar o curso superior que tanto sonhara.
Além de apaixonado pelas artes, o Palhaço Pipoca também era apaixonado pela política. Tanto que, se candidatou para vereador e a foto do santinho eleitoral era a do próprio Palhaço Pipoca e não de Antero Xavier. Acontece que o fato causou um imenso furor na política municipal, pois o povo adotou o slogan:
- Palhaço por palhaço, vote no Palhaço Pipoca.
O slogan não foi bem visto pelos membros do partido que ele havia se candidatado. Assim foi suspensa a circulação dos santinhos eleitorais com sua foto de palhaço e foi mandado fazer novos santinhos e desta vez como Antero Xavier. Só que o fato de usar o verdadeiro nome e não o nome do personagem fez com que o povo em linhas bastante gerais, não lembrassem de quem era Antero, o que acarretou em falta de êxito nos resultados eleitorais. Ele, porém, conseguiu provar que existe palhaçada até na política. Depois de Pipoca percebi que o que difere o palhaço do político é apenas a maneira de se vestir: pois ambos são personagens. Só que o palhaço nos traz alegria, enquanto o político faz palhaçada que para nós não tem graça alguma e no final ri da nossa cara.
Após três anos, conseguiu terminar o curso de artes plásticas e tentou ingressar na carreira de professor, sem muito êxito. Ainda criou o parque do Palhaço Pipoca, localizado próximo ao asilo no quintal de uma casa, lá realizou as devidas reformas e instalou o estabelecimento. Nessa empreitada, não foi tão aceito pela população e aos poucos, com o baixo movimento, teve de ser desativado.
Após batalhar em muitas profissões, estudar e construir sua casa própria e constituir família, certo dia o encontrei na avenida da entrada da cidade a conhecida Av. Padre Demostres. Ele desabafou:
- É, do jeito que as coisas vão indo, eu estou pensando em ir embora de Mococa, viu! Enquanto era só eu dava pra viver. Agora, com família esta cada vez mais difícil. Meus projetos não dão mais certo, não consigo dar aulas e não vejo reconhecimento. Está difícil. Estou pensando em me mudar para uma cidade maior, onde eu possa ter mais oportunidades e quem sabe encontrar reconhecimento e melhores condições de vida.
Confesso que fiquei chateado perante o desabafo por ele feito e não tive palavras para responder. Alguns meses depois, descobri que ele havia mudado para a cidade de Americana. Anos se passaram, ficou somente a saudade e nem se quer notícias do Palhaço Pipoca. Perdemos totalmente o contato e eu segui o meu caminho ele o dele, caminhos diferentes e individuais. Porém, ainda mantivemos acessa a chama da amizade.
Este é Palhaço Pipoca, o poeta, o escultor, o cantor, o artista cênico, o restaurador, o desenhista, o político, o professor e como vivia dizendo quando recebia elogios por seus trabalhos:
- O maior artista é Deus.
Como vivemos na era tecnológica, caí na ingenuidade de procurar o amigo distante na rede de computadores mais conhecida do mundo, a Internet. Entrei em diversos sites de procura e após digitar muitas palavras chaves não encontrei nada. Então, resolvi apelar para uma das maiores futilidades: Algo chamado Orkut, mas também não obtive sucesso em minha busca.
Eis que nas férias de julho de 2006, eu estava indo visitar um primo, encosto meu carro em um posto de gasolina localizado na entrada da cidade, em frente a primeira rotatória onde possui um Cristo de braços abertos. Para minha surpresa, quem estava parado logo na frente abastecendo, era o próprio Antero Xavier, ou melhor, o Palhaço Pipoca. Nos abraçamos por alguns minutos para matar a saudade de anos, por ali permanecemos conversando sobre nossas vidas e qual caminho escolhemos a elas. Anotei seu endereço e telefone, e realmente está morando em Americana, ele confessou que não estava inserido na era tecnológica globalizada chamada Internet. Fiquei de qualquer dia fazer-lhe uma visita. Foi uma tremenda satisfação encontrá-lo após anos distante.
Mococa ficou órfã da alegria contagiante do memorável Palhaço Pipoca.

Este texto faz parte do Livro Doces Histórias de Mococa. Editora USP, 2007.

Gustavo de Souza Pinto

(Bacharel, licenciado e Pós-graduado em História. UNESP-Franca)

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