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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Orelha Seca

Após sete anos trampando na construção civil como orelha seca ele descolou um trampo numa loja de materiais para construção. Ali labutava das 07hr30 às 18hr00 e aos sábados das 07hr30 às 13hr00. As 06hr00 levantava-se e com sua barra circular pedalava meia hora do bairro suburbano até o centro da cidade.
Em pouco tempo aprendeu os vinte mil itens da loja e vendia mais do que funcionários com dez anos de casa. Conseguiu comprar uma jogue a óleo dois tempos, apelidada de SUCEM e fez rolo em um FIAT 147. Percebia que o patrão sonegava impostos, não pagava as horas extras e nem folgas do banco de horas. Com o pouco que ganhava pagava suas contas e o restante comprava livros, sonhava em cursar uma universidade pública.
Foi seu primeiro emprego com carteira assinada, o que enchia a família de orgulho. Trabalhar na sombra com roupa limpa era para poucos. Com um ano de trampo e férias vencidas, pediu um dia de folga, mas o diálogo não foi nada amistoso. Ouviu a seco do patrão:
- Quem manda aqui é eu e te dou as férias quando eu quiser e bem entender.
- Amanhã não venho.
- Te mando embora!
- Firmeza. Você pode mandar nos seus funcionários, mas não é dono da minha vida.
Demitido e com sorriso no rosto, voltou a trabalhar na construção civil e na sequencia na concorrência. Voltou a estudar e passou no vestibular, mudou de cidade, formou-se historiador e professor. Hoje leciona na rede pública do Estado de São Paulo. Seu ex-patrão continua a construir um império em cima da ilegalidade e explorando jovens na mesma cidade, que o orelha seca não sente saudade.


Joey é escritor autodidata

domingo, 17 de abril de 2016

Aprendendo o meu lugar

             Orra essa faz miliano e veio em minha memória apenas agora. Ainda na infância, minha coroa conseguiu me matricular em uma escola pública central. Onde a maioria do período da manha era filho da burguesia, do morro até lá dava uns três quilômetros na sola. E criança tem aquela inocência de não entender muito bem o mundo dos adultos, principalmente as maldades.
            Tinha um colega de sala que era muito mais rico que os demais. Um dia me convidou pra colar na sua casa, ou melhor, seu castelo. De bobeira em um sabadão colei no casarão fincado no centro da cidade, naquele naipe: Chinelo havaianas, bermudinha surrada e camisa esfolada ganhada da patroa tia. Ali conheci um mundo distante do meu, dezenas de cômodos a se perder de vista. Todos, mas todos os brinquedos que eu via nas propagandas da TV, o Júlio era gente fina, também não entendia o egoísmo dos adultos.
          Ele deixava brincar com todos os brinquedos e ali passávamos horas criando batalhas imaginárias que nem percebíamos o tempo passar. Recordo de levar um matchbox – aqueles carrinhos de metal gringos que vinha em uma caixinha de papel- todo zuado, porém mais ligeiro que os centenas da coleção dele. Rolava aquela desconfiança de que eu poderia ser mão leve. E antes de guardarmos, os brinquedos eram severamente conferidos.  - Crianças venham tomar café! A empregada me viu colocar um carrinho no bolso e logo caguetou pra patroa. – Menino me deixa ver o que você tem no bolso? Se você quiser algo é só pedir, é feio fazer isso. Logo desandei a chorar sem parar, sinistro com a mão no bolso, sem soltar uma palavra. – Mamãe me deixa explicar: Ele não roubou nada, o que esta no bolso dele é o carrinho mais veloz de todos, é dele e ele me empresta para brincar. 


            Putz ai ficou aquele climão tenso e constrangedor demais. – Come mais, olha tem geleia, suco, torrada, bolo, refrigerante, doce, pipoca. – Não quero nada! Quero ir embora. – Então vamos jogar videogame? Andar de Bis’creta? Assistir vídeo cassete? Cai na real que ali não era o meu lugar, que não deveria mais voltar. Ofereceram até carona de volta, talvez para amenizar a mancada e tirar o peso da consciência por desconfiar da inocência de uma pobre criança.
            - Vou nessa, agenti si vê na escola. Deu’zica e aqui não colo mais! Fica com o carrinho pra você. Lá no morro nóis joga bola com golzinho de chinelo, taco, balança caixão, peão, pique esconde, bolinha de gude, bate figurinha, esconde-esconde, mãe da rua, telefone sem fio, passa anel, pega-pega, soltar pipa, peteca, pula sela, pular corda, queimada mais uma pá de brincadeira. Fica de barriga vazia, mas nenhuma tia dá geral pensando que nóis é ladrão. Falô ai, Valeu.

Joey é escritor autodidata.

sábado, 2 de abril de 2016

Conto nada erótico periférico.

No boteco tomando uma breja barata e vendo futebol na TV. Percebe ela passar trajada, indo ao culto. A troca de olhares descompromissado, porém carregado de vontades.
            - Te encontro depois das oito. O sim veio com um sorriso de canto de boca.
            Não existe a palavra amor e isento de sentimento ou pudor é palavrão atrelado a tesão. Não havia colchão, mas sim papelão, o travesseiro era saco de cimento. Apenas sexo sem sentimento, nenhum dos dois ciumentos.
            Deitados sob o concreto fluía o amor liquido. Distante de qualquer relação sólida, os orgasmos desmancharam-se no ar. O corpo nu a luz da lua era o colírio para afastar o pó do cimento a cada movimento.
            O silencio quebrado com sussurros e gemidos, porém nenhuma promessa de amor eterno, namoro, noivado ou casamento. Medidas incalculáveis de carinho, também gemidos reprimidos. Mordidas, chupadas, roupas intimas rasgadas, beijos molhados, unhadas, puxões de cabelo e tapas. Quase um vale tudo, o oferecer o prazer a alguém sem olhar quem.
            A mistura perfeita para a satisfação sexual e quem sabe espantar a solidão. A personificação do sexo descapitalizado, sem custos, apenas energia física e vontade, excitação e sedução. O carnal quase animalesco, onde ambos saem de si e se entregam ao outro alheio.
            Eis o sexo inseguro, atrás do muro. Ela confia na tabelinha e ele no coito. O encontro às oito onde as ultimas palavras trocadas foram:
            - Vamos! Você mora longe pra caralho, tenho de ti levar e voltar a pé. E amanha vou trabalhar cedo.
            - Vai tomar no seu cú, seu porra. Olha a minha roupa toda suja, o que vão pensar? O que vou dizer lá em casa?
            Quarta que vem tem futebol na TV e culto na igreja. E no mesmo horário vão encontrar-se, para a construção vão voltar e reciprocamente as vontades carnais saciar!

Joey é escritor autodidata.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Ícaro em chamas!

Com mãe, irmã e pai encarcerados. Seu pai não era tão criativo e habilidoso, tanto que agora vivia em meio a labirintos de grades. Bem cedo Ícaro criou asas para o crime e com 12 anos de idade saiu do orfanado e caiu direto na Fundação Casa.  Quando a liberdade cantou bateu asas de lá e viemos a nos encontrar.
            Um dia em uma oficina de arte para ressocialização de menores em liberdade assistida, estávamos transformando materiais reciclados em instrumentos musicais. Um grupo de seis pessoas, eis que surge Ícaro com menos de um metro e sessenta, franzino e de uma arrogância e prepotência sem limites.
            - Vô fazer nada nessa porra. Quero ver quem vai me obrigar!
            Estava bicudo de farinha e pagando de herói para se auto afirmar aos demais, só não esperava que os moleques conhecessem sua caminhada, assim como eu tinha a capivara de todos eles. – Então ninguém tá te obrigando a fazer nada, muito menos estar aqui. Se não tá a fim de pagar o que deve. Levanta o pano de bunda e sai vazado. Até porque tô aqui pra livrar a cara de vocês e defender o meu e não sustentar conversinha torta.
            - Você sabe o que um menor pode fazer com este estilete na mão tio? Tem amor na vida não?
            - Então imagina um pirógrafo queimando, furando seu tímpano. Vai cair e sangrar até a morte. Justifico legitima defesa, não vai ter ninguém chorando no velório.
             Após rizadas intermináveis um dos moleques lançaram: - Aê encosta no sapatinho, quer chegar chegando na banca. O Jhow tá livrando a nossa cara morô. Vem querendo tumultuar, escutou o que não quer agora fica em choque e chora.
            Pagava de ladrão com treze anos de idade, que tinha armas e rodou por 157. Mas a real que agrediu menor e funcionários do orfanado e depois rodou de aviãozinho na biqueira. Até no crime a mentira tem pernas curtas e tava pagando de comédia ali. Ameaçou jogar cadeiras e tumultuar a oficina, chamando atenção dos funcionários. Até que Caim: - Aê menor segura o reggae! Tá pensando que isso aqui é o que? Não conhece ninguém e vem querer crescer! Baixa a bola ou te passamos lá fora.
            E assim Ícaro derramando lágrimas partiu em chamas. Morrendo de vontade de me matar. E a oficina continuei a ministrar. Aprendi na prática o ditado popular português. “Não se dá água a cavalo que não tem sede”. Assim como não se ensina quem não quer aprender.





Joey é escritor Autodidata

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Aos filhos

A filha do agricultor
Hoje tem aula com doutor
O filho do marceneiro
Vai ser formar em engenharia
E matar a família de alegria
O filho do caminhoneiro
Também vai se tornar engenheiro
A neta criada pela avó
Passou em primeiro lugar na UFSCAR
O filho da doméstica solteira
Passou em medicina
Bateu assas e foi pro México.
O filho da enfermeira se tornou professor
A ex cozinheira não desistia
Hoje e formada em pedagogia
Quanto filho de trabalhador
Se formando doutor
Quantas aulas deixaram de matar!
 Se mataram de estudar
Em cursinho popular
 E tiveram que provar
Que universidade é lugar
Da classe popular.                                                


Joey é escritor autodidata

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Cadê o rango dos menor?

Ocorria uma onda de assaltos à mão armada que assolava uma cidade interiorana há semanas. Empresários, lojistas e a população estavam em pânico, este anunciado em jornais, televisão, rádio e internet.
            - Eu e meu primo – cheio de B.Os pra resolver – nóis tava tirando um lazer no corguinho no meio da cana. Sabe refrescar e fumar unzinho. Chupando uma cana de leve e do nada aparece os cana.
            - Mão na cabeça os dois. Nem pensa em correr que é flagrante dos brabo!
            Acompanhando os cana estava uma suposta vítima, um senhorzinho caduco que pouco enxergava e ouvia menos ainda. E assim meteram o grampo em Leléo e seu primo arrasta B.O. Até uma arma apareceu para formalizar o flagrante, e com reconhecimento da vítima fora consumado que dos 16 para os 17 anos o muleke da quebrada teria um novo endereço distante da casa cheio de reciclados na porta.
            - Cê é loko jão! Logo me mandaram pra um CDP de menor em uma cidade vizinha, três dias esperando vaga pra ser transferido. Demorou pra caralho pra sair porque a viatura tava zuada, quando saiu foi à milhão, cara corria mais que piloto de fuga e sem contar que não freava em uma lombada. Pra fuder o resto, no meio do caminho furou dois pneus, pô logo dois, puta azar da porra. Dois pneus e duas horas no sol em frente à borracharia do posto de gasolina.
            Ao chegar à Fundação Casa de Osasco a 200 km de sua goma, já tinha passado o horário do jantar e as luzes já estavam apagadas. Dormiu com fome, mas perto do medo, solidão, desamparo, insegurança e uma infinidade de sentimentos que se aproximava nos próximos meses, a fome não era nada.
            - Lá era cabeça baixa. Sim Sinhô! E Pouco não Sinhô! Se olhava para cima era soco na cara, usar cueca azul coletiva a Corujinha, pegar pereba na bunda e o remédio era talco de pé jogado pelos carcereiros. Até pra bater uma tinha de pedir licença pros parsas de cela, para demorar no banheiro. Falar com a família só por telefone uma vez por semana e cinco minutos. Cê é loko quero isso mais não jão!
            No CREAS Leléo passava por psicóloga, assistente social e participava de oficinas culturais duas vezes por semana, como parte do acompanhamento do processo de liberdade assistida.
            - Agora voltei a estudar. Nuss cê fala que saiu da FEBEM, chove de novinha em cima.
            Leléo das novinha colava nas oficinas com uma barra forte que o pai usava para recolher reciclados, a chamava de hornet. E nas longas tardes quentes de conversas intermináveis quando o café tardava, ele logo gritava.
            - Oh cadê o rango dos menor?
            Assim Leléo das novinha engravidara a primeira que encontrara ao sair da fundação casa. Outro dia nos encontramos por acaso em um destes botecos de copo sujo e cerveja gelada.

            - E ae Jhow locão! Como tá a caminhada? Eu paguei o que devia, nasceu meu neguinho e tô trampando de pintor. Juntando uma grana para comprar um fuscão. Vou nessa amanha tenho de acordar cedo.                                                                                                          
                                                                                                                                                                                                                                                                                             Joey é escritor autodidata.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Socorro!


            Por favor, me ajudem a entender. É uma súplica da dúvida, pois ainda insisto em indagar. Durante a semana é dieta “gourmet fit” e aos finais de semana gasta o valor do salário da empregada na pizzaria. Cultua o corpo e atrofia a mente. Vai de carro a academia, pedalar na bicicleta ergométrica. Na volta insulta o tiozinho de barra forte que esta voltando do trabalho cansado da vida em seu único meio de transporte.
            Paga um salário de miséria para a Dona Maria lavar, passar, cozinhar, faxinar, e cuidar dos filhos. O mesmo que investe para praticar “Cross training” para perder calorias e moldar o corpo e se encaixar nos padrões impostos pela ditadura da beleza.
            A última é reclamar das mudanças nas leis trabalhistas de empregadas domésticas. Acha o cúmulo do absurdo ter de pagar fundo de garantia e registro em carteira de trabalho. Porém frauda o imposto de renda apresentando atestado médico falso.
            O filho menor da Dona Maria caiu na biqueira e agora esta na Fundação Casa, em uma cidade muito distante. Enquanto a liberdade não cantar ele não vai receber visita da mãe. Pois se faltar ao trabalho é demissão na certa. Quando a liberdade cantar para o Junior ele vai sair sem saber ler e escrever, mas pós-graduado no crime. Pois esta instituição não ressocializa e sim criminaliza.
            Sorte da madame, patroa da Dona Maria. Que o Junior só não almeja tomar de assalto o casarão. Por que é dali que sai o sustento do barraco. Pois se encanar em tacar o terror e fazer a fita. Não há guarita com segurança, alambrado, cerca elétrica e circuito interno que segure o veneno que borbulha nas veias de cada menino que corre nos becos e vielas deste país.



Joey é escritor autodidata.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O silêncio ainda que tarda.

              
            Em um lapso o silêncio é quebrado com a cantoria da igreja evangélica ou com a gritaria do vai curintiá! O mesmo ópio com doses cavalares diferentes, usando muletas semelhantes.
            Como é triste presenciar o silêncio dolorido da criança com sete anos de idade que contraiu HIV sofrendo abuso do padrasto. O silêncio virtual é um luto contra a ignorância alheia que tomou conta das redes sociais. O silêncio neste ambiente gera insatisfação, pois não postar, curtir e compartilhar é considerado anomalia virtual, quase um pecado tecnológico.
            Nem diálogos com os que se dizem entendidos é possível. Pois estes não são capazes de conterem seu silêncio e vociferam superioridade com retóricas contraditórias. A forma de exteriorizar o meu silêncio é a escrita, que por sinal é lida por poucos. Pois esta geração esta habituada a cento e quarenta caracteres.
            Não se ensina aos gritos, mas aprende-se muito com o silêncio. Aprendi as duras penas que o silêncio é sinônimo de indiferença, e esta ultimamente anda fazendo toda diferença. Meu silêncio não me faz cúmplice, assim como também não quer dizer que eu não esteja conspirando contra a própria vida. Enfim, já dizia Confúcio. “O silêncio é um amigo que nunca trai”.
           O silêncio é um direito que ultimamente deveria se tornar um dever. Quebrar o silêncio deveria ser crime inafiançável. Condenado ao silêncio eterno. Sartre afirmava que “O inferno são os outros” e são eles que insistem a todo custo em violar o silêncio alheio. Afinal, para que gritar para um mundo surdo? Gostaria de pedir apenas um século de silêncio !Im memorian do próprio.


Joey é escritor autodidata.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Ninguém em terra de ninguém!

            O dito popular afirma que pobre nunca tem nada e quando chove perde tudo. Seria cômico se não fosse trágico. Para quem nunca teve nada o pouco passa a ser tudo, literalmente tudo. Tudo parcelado em carnês, tudo pago honestamente, tudo isso pelo dobro do valor a vista. Tudo que era para o pouco conforto, agora esta perdido.
            - Tudo que o pobre tem são os dentes e o nome.
            Então entra em cena o ninguém. Ninguém viu o incêndio criminoso para higienizar a favela ao lado do condomínio de luxo. Ninguém percebeu os barracos arderem em chamas e transformar o sonho da moradia em cinzas. Assim como ninguém vai ressarcir os danos causados pelo incêndio ou pela enchente.
             Quem nunca teve nada, perdeu o pouco que conquistou com muita luta. Agora não tem nem ao menos documentos e sem RG, CPF, carteira de trabalho, certidão de nascimento, PIS/PASEP e titulo de eleitor, não é cidadão e se torna ninguém.
            Aqui todos estão acostumados a perder. Perder amigos, perder tempo, perder o sono, perder dinheiro, perder a saúde, perder a coragem. Porém ninguém perde aquilo que nunca teve. Perde-se tudo. Menos a humildade e a dignidade.
            Portanto viver em favelas e áreas de risco é literalmente estar em uma linha tênue de correr o risco de não ser ninguém e consequentemente, viver em uma terra de ninguém. E quantos “ninguéns” são enterrados como indigentes diariamente.
            O mundo não anda tão diferente. Onde ninguém tem direito de sonhar e quiçá ser feliz. Ninguém ama ninguém, ninguém se importa com ninguém. Assim votamos em ninguém, pois ninguém vai mudar nada mesmo. Porém ainda insisto em escrever, mesmo sabendo correr o risco de ninguém ler.
Joey é escritor autodidata.

            

sábado, 12 de dezembro de 2015

Cyber Quebrada


            Não faz muito tempo que as “Lan House” e “Cyber café” invadiram as periferias, substituindo os fliperamas. Um amontoado de bicicletas em frente ao estabelecimento que mais parecia um pátio de escola, pelos gritos de euforia em meio a jogos virtuais, Orkut, msn e sala de bate papo.
            - Põe mais dois real ai tio!
            - Sem gritaria. Aqui é lugar de respeito!
            - Tio quer comparar isso aqui com igreja é ?
            Porém com o “boom” tecnológico da telefonia móvel atrelado a internet móvel, planos e facilidades para adquirir lap tops, tablets e celulares. A quebrada foi literalmente inundada por estas tecnologias e paulatinamente a Cyber fora esvaziada e quebrada.
            A Cyber fora quebrada e a função virtualizada. E por lembrar em celular, estes fazem parte da rotina da maioria das escolas. E rola de tudo: selfie, nudes, vídeos em banheiro, tretas virtuais, ameaça de morte, redes sociais, bluetooth, compartilhamento de vídeos, músicas e uma infinidade de aplicativos, menos algo relacionado a aprendizagem.
            - Ae Jão qual o seu maior sonho?
            - Ah fessor, é ter um Moto G de ultima geração e assinatura do Netflix. Ae sim eu seria feliz.
            Triste geração que até os sonhos foram virtualizados. As relações sociais também virtualizaram e a escola se mantém retrógrada e obsoleta em uma concorrência desleal com o mundo tecnológico que vive em constantes transformações.
            Putz, esta acabando a bateria do smarthfone e vou postar este texto só amanha. Porém vou aproveitar um Wi Fi alheio. Ah este mundo pós moderno.

Joey é escritor autodidata

sábado, 14 de novembro de 2015

Reflexões sobre uma tal “cena”!

É impressionante como a cena ultimamente vive de meras relações de interesses comuns, tocar e divulgar, criando relações entre si, coisificadas ou permeadas, por objetivos de consumo comum; gerando grupos sectários que praticam a exclusão de quem a este não pertence e ou discordam de suas ideias.
Podendo desaparecer o espirito de solidariedade orgânica da cena que deveria ser um dos atrativos do movimento, fadado a cair na maldição do tédio, não muito distante de alguns eventos que tais grupos insistem em ditarem as regras e julgarem aqueles que não fazem parte de seu meio. Tolhendo a liberdade alheia com discursos moralistas semelhantes a pastores neopentecostais: faça isso; não faça aquilo; isto é correto; aquilo é errado. Discurso panfletário superficial sem fundamentação, distante de convencer pessoas a se tornarem como elas.
Ocorre uma espécie de culto ao divino, a algumas bandas e pessoas consideradas Semideuses, detentoras de talento e verdades incontestáveis. Caindo por terra o discurso de anti-idolatria. Óbvio que não devemos generalizar, assim com também não devemos ter olhar negativo sobre o contexto geral; ainda encontramos uma minoria de pessoas envolvidas no espirito comunitário do faça você mesmo (D.I.Y).
Outro fato que intriga é a critica exagerada ao capitalismo, seguida da extrema contradição do consumo e idolatria ao fetichismo da mercadoria. Não valorizam CDR, CDR-pró e K7’s e supervalorizam CD’s industrializados.
Ficam aqui algumas indagações: onde esta D.I.Y? Autogestão? Conhecimento e circulação de ideias? Mutualismo? E tantos outros termos que ainda poderiam ser citados. Ao que tudo indica, estamos distantes de uma revolução na cena, quanto muito uma revolução social pregada por esta.
Não desisti da cena medíocre, não desanimei da cena nefasta, não desencanei da cena boçal. Este expressa a minha indignação em relação às transformações que presenciei nestes quase 20 anos envolvido, no que é rotulado de “cena”. Vale ressaltar que esta é construída por seres humanos e são estes repletos de contradições que a tornam melhor ou a faz definhar de vez.

Por: Joey, é escritor autodidata.

Reflexões desta tal cena parte 2!

Após gerar certo desconforto e porque não determinada polemica, volto com os escritos de quatro mil caracteres sobre o cotidiano vivenciado nos ambientes undergrounds interioranos do estado de São Paulo. Desta vez não apenas como gestor de eventos e representante de selo & distro; mas dividindo o palco com outras bandas.
Bastaram sete meses para participar de 12 eventos nos mais distintos lugares, praças, Pubs. Bares, sedes de moto club, republicas e quadras. Revendo amigos, conquistando outros no decorrer dos quilômetros deixados para trás e posteriormente adicionados em redes sociais para estreitar ainda mais relações de reciproco respeito. Porém ainda nos deparamos com muito sentimento de egoísmo no sentido de algumas pessoas interpretarem o movimento underground e ou o que rotulam de cena como uma espécie de competição e ou jogo.
E como funcionaria isso? Sai na frente quem for o mais envolvido e possuir os melhores “contatos”. Como já supramencionado no escrito anterior, mais uma vez as relações de interesses sobrepõem as relações humanas, a coisificação da arte. Porém a mesquinharia não para por ai, ganha mais pontos quem tocar com bandas consideradas mais “reconhecidas” e se sua banda tocar em uma cidade mais distante e ou em outro estado é bônus na contagem de estar sempre à frente e nunca no mesmo patamar das demais bandas. Se tiver uma resenha em um zine e ou revista especializada sua banda passa de fase. Se prensar algo em vinil então é o ápice orgástico independente. Só não consigo entender o final do jogo e qual o maior premio de boçalidade a ser entregue a seres que buscam o troféu torpe do ano.
Outro fato que me impressionou além do espirito de competitividade que cai por terra perante a autogestão e cooperação que vivencio em outros ambientes. Vem a ser a falta de escrúpulos perante as determinadas situações em eventos: Não é falta de bom senso e sim falta de consideração mesmo. Presenciar algumas bandas tocarem com equipamentos precários e deixar os seus confinados, enquanto poderiam ser compartilhados e socializados entre todas as bandas que a principio dividem o mesmo palco. Pena que na mente de pessoas mesquinhas, não funciona a prática comunitária. Obvio que ninguém é obrigado a emprestar nada ao próximo. Mas em eventos ditos alternativos costumavam funcionar desta forma.
Participando de festivais que envolviam diversas bandas às vezes mais de 10 e em eventos menores com quatro ou mais bandas, tive o desprazer nostálgico de vivenciar o retrógrado argumento do “escolher a ordem que quer tocar”, não toco por ultimo por “X” motivo, assim como não toco primeiro por “Y” motivo, minha banda tem mais tempo de estrada e temos de tocar antes ou depois da banda principal. Confesso que no sorteio e ou na escolha da ordem de apresentação, na maioria das vezes entro mudo e saio calado, sou o ultimo a opinar e para não gerar mais desconforto deixo os egoístas, invejosos, ciumentos e mesquinhos decidirem. Aprendi que não vale apena me desgastar por algo que me parece ser hegemônico e estar instaurado na maioria dos lugares que compareci para tocar.
Concomitante a toda esta problemática que não é por menos de vivendo e aprendendo que a história é responsável por nos demonstrar que com o passar do tempo algumas coisas são modificadas graças às relações humanas, enquanto outras são degradas graças a este mesmo processo dialético. E assim findamos mais um ano e que venha os próximos repletos de surpresas assim como decepções constantes. A cena ainda é algo que vale apena. Cito as palavras de um profundo pensador. “Mudar é difícil, mas é possível” Paulo Freire.

Por: Joey, é escritor autodidata.

Reflexões sobre essa tal cena parte 3.

Após algum tempo despendido a cuidar de prioridades individuais volto a escrever e buscar digerir a realidade a qual estamos submersos de um universo e ou um mundinho a que muitos chamam de underground e ou cena. Não sei até que ponto apontar contradições e ou de expor uma visão que para muitos pode parecer distorcida, para outros negativa beirando ao niilismo. Porém acredito na livre circulação das ideias e os outros dois textos já me renderam alguns “deletes” de “coleguinhas” virtualizados, porque não interessados e ou que não aceitam o diferente mesmo vindo de pessoas que se dizem fazer parte de coletivos libertários. Porém aprendi a deixar determinados fatos e ou acontecimentos relacionados a alguns indivíduos caírem no esquecimento, pois as existências destes jamais foram relevantes para mim.
As reflexões deste referem-se à reprodução de uma ordem pequena burguesa estabelecida, por meio de uma pseudocultura erudita que está distante de representar a cultura underground, uma cena originalmente caracterizada como subcultura e ou contra cultura. Mais cultos e superiores? Ou acreditam em um progresso cultural no cerne da contra cultura? Até que ponto este espirito insuportavelmente limitado se apropria de meandros da tal cena pregando uma nova cultura e buscando matar a antiga. Jamais defenderia tradições, pelo contrario sou a favor de rupturas constantes em determinadas estruturas e a cena seria o pano de fundo nestes combates constantes. Para tanto busco exemplificar em fatos personificados.
Alguns eventos vêm sendo vendidos como superiores a outros, desde os lugares aos quais são realizados, até as atrações que vão ocorrer. Distante de qualquer originalidade, reproduzindo uma visão euro centrista e porque não uma cópia esdruxula de metropolização. Será que estou ficando velho e chato, beirando ao conservadorismo e um tanto quanto nostálgico ou estas novas tendências estão próximas apenas de minha pessoa? Caracterizar um evento em locais públicos, se apropriando de verbas públicas para benefícios próprios, assim como restringir o público que a este terá acesso, vendendo um produto politicamente correto: Apenas bandas que fazem parte da panela, exposições de um grupo seleto, venda de comida politicamente correta, sem consumo de bebidas alcoólicas. Sou vegetariano e não consumi drogas durante oito anos e hoje bebo, porém nunca fui panfletário e me senti superior, muito menos vanguarda de nada. Sinto uma aparência de estado provisório e superficial nestes “eventos cult”, o que antes eram realizados em locais precários, sem distinção de publico, muito menos restrições e ou o que rotulamos de “fitagem”. Soa a impressão de a cena tornar-se um jogo, a que o mais “cult” soma mais pontos, é mais respeitado, cultuado e idolatrado. Mesmo em pleno sertão interiorano paulistano, a liquida sensação de se nas capitais são o máximo, porque não reproduzir esta receita mágica?
Fica uma reflexão do filósofo Nietzsche: Parece que tudo retorna ao caos, que o antigo se perde, que o novo não vale nada e se enfraquece cada vez mais... A humanidade inteira está, nos seus movimentos, desprovida de fins e de objetivos. Parafraseando o pensador: A cena é um deserto ainda vasto, com poucos “Oásis” repletos de amizades sinceras que ainda faz valer apena, e desbravar esta imensidão é um dos maiores desafios dos que ainda acreditam. Ou será que chegamos a um lugar sem volta, do qual não podemos recuar?
Joey é escritor autodidata.