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sábado, 27 de agosto de 2016

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Orelha Seca

Após sete anos trampando na construção civil como orelha seca ele descolou um trampo numa loja de materiais para construção. Ali labutava das 07hr30 às 18hr00 e aos sábados das 07hr30 às 13hr00. As 06hr00 levantava-se e com sua barra circular pedalava meia hora do bairro suburbano até o centro da cidade.
Em pouco tempo aprendeu os vinte mil itens da loja e vendia mais do que funcionários com dez anos de casa. Conseguiu comprar uma jogue a óleo dois tempos, apelidada de SUCEM e fez rolo em um FIAT 147. Percebia que o patrão sonegava impostos, não pagava as horas extras e nem folgas do banco de horas. Com o pouco que ganhava pagava suas contas e o restante comprava livros, sonhava em cursar uma universidade pública.
Foi seu primeiro emprego com carteira assinada, o que enchia a família de orgulho. Trabalhar na sombra com roupa limpa era para poucos. Com um ano de trampo e férias vencidas, pediu um dia de folga, mas o diálogo não foi nada amistoso. Ouviu a seco do patrão:
- Quem manda aqui é eu e te dou as férias quando eu quiser e bem entender.
- Amanhã não venho.
- Te mando embora!
- Firmeza. Você pode mandar nos seus funcionários, mas não é dono da minha vida.
Demitido e com sorriso no rosto, voltou a trabalhar na construção civil e na sequencia na concorrência. Voltou a estudar e passou no vestibular, mudou de cidade, formou-se historiador e professor. Hoje leciona na rede pública do Estado de São Paulo. Seu ex-patrão continua a construir um império em cima da ilegalidade e explorando jovens na mesma cidade, que o orelha seca não sente saudade.


Joey é escritor autodidata

domingo, 17 de abril de 2016

Aprendendo o meu lugar

             Orra essa faz miliano e veio em minha memória apenas agora. Ainda na infância, minha coroa conseguiu me matricular em uma escola pública central. Onde a maioria do período da manha era filho da burguesia, do morro até lá dava uns três quilômetros na sola. E criança tem aquela inocência de não entender muito bem o mundo dos adultos, principalmente as maldades.
            Tinha um colega de sala que era muito mais rico que os demais. Um dia me convidou pra colar na sua casa, ou melhor, seu castelo. De bobeira em um sabadão colei no casarão fincado no centro da cidade, naquele naipe: Chinelo havaianas, bermudinha surrada e camisa esfolada ganhada da patroa tia. Ali conheci um mundo distante do meu, dezenas de cômodos a se perder de vista. Todos, mas todos os brinquedos que eu via nas propagandas da TV, o Júlio era gente fina, também não entendia o egoísmo dos adultos.
          Ele deixava brincar com todos os brinquedos e ali passávamos horas criando batalhas imaginárias que nem percebíamos o tempo passar. Recordo de levar um matchbox – aqueles carrinhos de metal gringos que vinha em uma caixinha de papel- todo zuado, porém mais ligeiro que os centenas da coleção dele. Rolava aquela desconfiança de que eu poderia ser mão leve. E antes de guardarmos, os brinquedos eram severamente conferidos.  - Crianças venham tomar café! A empregada me viu colocar um carrinho no bolso e logo caguetou pra patroa. – Menino me deixa ver o que você tem no bolso? Se você quiser algo é só pedir, é feio fazer isso. Logo desandei a chorar sem parar, sinistro com a mão no bolso, sem soltar uma palavra. – Mamãe me deixa explicar: Ele não roubou nada, o que esta no bolso dele é o carrinho mais veloz de todos, é dele e ele me empresta para brincar. 


            Putz ai ficou aquele climão tenso e constrangedor demais. – Come mais, olha tem geleia, suco, torrada, bolo, refrigerante, doce, pipoca. – Não quero nada! Quero ir embora. – Então vamos jogar videogame? Andar de Bis’creta? Assistir vídeo cassete? Cai na real que ali não era o meu lugar, que não deveria mais voltar. Ofereceram até carona de volta, talvez para amenizar a mancada e tirar o peso da consciência por desconfiar da inocência de uma pobre criança.
            - Vou nessa, agenti si vê na escola. Deu’zica e aqui não colo mais! Fica com o carrinho pra você. Lá no morro nóis joga bola com golzinho de chinelo, taco, balança caixão, peão, pique esconde, bolinha de gude, bate figurinha, esconde-esconde, mãe da rua, telefone sem fio, passa anel, pega-pega, soltar pipa, peteca, pula sela, pular corda, queimada mais uma pá de brincadeira. Fica de barriga vazia, mas nenhuma tia dá geral pensando que nóis é ladrão. Falô ai, Valeu.

Joey é escritor autodidata.

sábado, 2 de abril de 2016

Conto nada erótico periférico.

No boteco tomando uma breja barata e vendo futebol na TV. Percebe ela passar trajada, indo ao culto. A troca de olhares descompromissado, porém carregado de vontades.
            - Te encontro depois das oito. O sim veio com um sorriso de canto de boca.
            Não existe a palavra amor e isento de sentimento ou pudor é palavrão atrelado a tesão. Não havia colchão, mas sim papelão, o travesseiro era saco de cimento. Apenas sexo sem sentimento, nenhum dos dois ciumentos.
            Deitados sob o concreto fluía o amor liquido. Distante de qualquer relação sólida, os orgasmos desmancharam-se no ar. O corpo nu a luz da lua era o colírio para afastar o pó do cimento a cada movimento.
            O silencio quebrado com sussurros e gemidos, porém nenhuma promessa de amor eterno, namoro, noivado ou casamento. Medidas incalculáveis de carinho, também gemidos reprimidos. Mordidas, chupadas, roupas intimas rasgadas, beijos molhados, unhadas, puxões de cabelo e tapas. Quase um vale tudo, o oferecer o prazer a alguém sem olhar quem.
            A mistura perfeita para a satisfação sexual e quem sabe espantar a solidão. A personificação do sexo descapitalizado, sem custos, apenas energia física e vontade, excitação e sedução. O carnal quase animalesco, onde ambos saem de si e se entregam ao outro alheio.
            Eis o sexo inseguro, atrás do muro. Ela confia na tabelinha e ele no coito. O encontro às oito onde as ultimas palavras trocadas foram:
            - Vamos! Você mora longe pra caralho, tenho de ti levar e voltar a pé. E amanha vou trabalhar cedo.
            - Vai tomar no seu cú, seu porra. Olha a minha roupa toda suja, o que vão pensar? O que vou dizer lá em casa?
            Quarta que vem tem futebol na TV e culto na igreja. E no mesmo horário vão encontrar-se, para a construção vão voltar e reciprocamente as vontades carnais saciar!

Joey é escritor autodidata.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Zanga do conservatório

          De rolê com um mano que acabara de conhecer, voltando de uma festa veio a acontecer. Enquadrado pela patrulha rodoviária, pacoteira em cima, rodou como tráfico e assim iniciou-se a sina. Foi assim de bobeira que entrou para o conservatório musical na cela insalubre que dividia com diversos detentos. Conviveu com a diversidade criminal, escreveu uma carta para a mãe, mas a primeira visita foi do pai. Uma cota sem ver a família e trombar os parças,  contato só por cartas, isolado, trancado em um túmulo de concreto ao céu aberto.
         Queria realmente mudar, não mofar, de lá se jogar e se possível nunca mais voltar. A rotina interminável de um lugar onde as horas pareciam rastejar, de manhã depois de pagar o banho gelado, um cliver acesso com o bic emprestado, seguido de um chá de urubu requentado, rango azedo era reciclado, uma sesta pra desbaratinar e como chinfra o futebol, finalizando um trago no fininho do índio para relaxar.
         A mãe dizia que o filho foi pras”oropa estudar e trabalhar, na Alemanha foi morar e que iria demorar para voltar. Por três anos passou mó veneno na tranca, não foi fácil mas tirou de letra, estudou o código penal e de lá saiu mestre em violão clássico. Tocando Bach, Beethoven, Villa-Lobos, João Pernambuco. Hoje toca em uma orquestra de violões.
          Sinistro por não descolar trampo devido à capivara que constava ex-presidiário. Como muitos, dá os corres com aulas particulares de violão e guitarra na quebrada, poderia ter saído pós-graduado no crime. Porém escolheu conhecer-se e a vida recomeçar, distante de lá. Para onde nem em sonho quer mais voltar.
         Pagou o que devia e segue a vida distante de tretas. Até hoje luta para não se entregar aos vícios das esquinas. Miliano que não trombo o Zanga, saudades parça das antigas. Com ele muito aprendi, principalmente que a redenção é possível. Pena que a sociedade não tivera a oportunidade de conhecê-lo e quem sabe isso também aprender.



         Joey é escritor autodidata.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Ícaro em chamas!

Com mãe, irmã e pai encarcerados. Seu pai não era tão criativo e habilidoso, tanto que agora vivia em meio a labirintos de grades. Bem cedo Ícaro criou asas para o crime e com 12 anos de idade saiu do orfanado e caiu direto na Fundação Casa.  Quando a liberdade cantou bateu asas de lá e viemos a nos encontrar.
            Um dia em uma oficina de arte para ressocialização de menores em liberdade assistida, estávamos transformando materiais reciclados em instrumentos musicais. Um grupo de seis pessoas, eis que surge Ícaro com menos de um metro e sessenta, franzino e de uma arrogância e prepotência sem limites.
            - Vô fazer nada nessa porra. Quero ver quem vai me obrigar!
            Estava bicudo de farinha e pagando de herói para se auto afirmar aos demais, só não esperava que os moleques conhecessem sua caminhada, assim como eu tinha a capivara de todos eles. – Então ninguém tá te obrigando a fazer nada, muito menos estar aqui. Se não tá a fim de pagar o que deve. Levanta o pano de bunda e sai vazado. Até porque tô aqui pra livrar a cara de vocês e defender o meu e não sustentar conversinha torta.
            - Você sabe o que um menor pode fazer com este estilete na mão tio? Tem amor na vida não?
            - Então imagina um pirógrafo queimando, furando seu tímpano. Vai cair e sangrar até a morte. Justifico legitima defesa, não vai ter ninguém chorando no velório.
             Após rizadas intermináveis um dos moleques lançaram: - Aê encosta no sapatinho, quer chegar chegando na banca. O Jhow tá livrando a nossa cara morô. Vem querendo tumultuar, escutou o que não quer agora fica em choque e chora.
            Pagava de ladrão com treze anos de idade, que tinha armas e rodou por 157. Mas a real que agrediu menor e funcionários do orfanado e depois rodou de aviãozinho na biqueira. Até no crime a mentira tem pernas curtas e tava pagando de comédia ali. Ameaçou jogar cadeiras e tumultuar a oficina, chamando atenção dos funcionários. Até que Caim: - Aê menor segura o reggae! Tá pensando que isso aqui é o que? Não conhece ninguém e vem querer crescer! Baixa a bola ou te passamos lá fora.
            E assim Ícaro derramando lágrimas partiu em chamas. Morrendo de vontade de me matar. E a oficina continuei a ministrar. Aprendi na prática o ditado popular português. “Não se dá água a cavalo que não tem sede”. Assim como não se ensina quem não quer aprender.





Joey é escritor Autodidata

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Aos filhos

A filha do agricultor
Hoje tem aula com doutor
O filho do marceneiro
Vai ser formar em engenharia
E matar a família de alegria
O filho do caminhoneiro
Também vai se tornar engenheiro
A neta criada pela avó
Passou em primeiro lugar na UFSCAR
O filho da doméstica solteira
Passou em medicina
Bateu assas e foi pro México.
O filho da enfermeira se tornou professor
A ex cozinheira não desistia
Hoje e formada em pedagogia
Quanto filho de trabalhador
Se formando doutor
Quantas aulas deixaram de matar!
 Se mataram de estudar
Em cursinho popular
 E tiveram que provar
Que universidade é lugar
Da classe popular.                                                


Joey é escritor autodidata

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Cadê o rango dos menor?

Ocorria uma onda de assaltos à mão armada que assolava uma cidade interiorana há semanas. Empresários, lojistas e a população estavam em pânico, este anunciado em jornais, televisão, rádio e internet.
            - Eu e meu primo – cheio de B.Os pra resolver – nóis tava tirando um lazer no corguinho no meio da cana. Sabe refrescar e fumar unzinho. Chupando uma cana de leve e do nada aparece os cana.
            - Mão na cabeça os dois. Nem pensa em correr que é flagrante dos brabo!
            Acompanhando os cana estava uma suposta vítima, um senhorzinho caduco que pouco enxergava e ouvia menos ainda. E assim meteram o grampo em Leléo e seu primo arrasta B.O. Até uma arma apareceu para formalizar o flagrante, e com reconhecimento da vítima fora consumado que dos 16 para os 17 anos o muleke da quebrada teria um novo endereço distante da casa cheio de reciclados na porta.
            - Cê é loko jão! Logo me mandaram pra um CDP de menor em uma cidade vizinha, três dias esperando vaga pra ser transferido. Demorou pra caralho pra sair porque a viatura tava zuada, quando saiu foi à milhão, cara corria mais que piloto de fuga e sem contar que não freava em uma lombada. Pra fuder o resto, no meio do caminho furou dois pneus, pô logo dois, puta azar da porra. Dois pneus e duas horas no sol em frente à borracharia do posto de gasolina.
            Ao chegar à Fundação Casa de Osasco a 200 km de sua goma, já tinha passado o horário do jantar e as luzes já estavam apagadas. Dormiu com fome, mas perto do medo, solidão, desamparo, insegurança e uma infinidade de sentimentos que se aproximava nos próximos meses, a fome não era nada.
            - Lá era cabeça baixa. Sim Sinhô! E Pouco não Sinhô! Se olhava para cima era soco na cara, usar cueca azul coletiva a Corujinha, pegar pereba na bunda e o remédio era talco de pé jogado pelos carcereiros. Até pra bater uma tinha de pedir licença pros parsas de cela, para demorar no banheiro. Falar com a família só por telefone uma vez por semana e cinco minutos. Cê é loko quero isso mais não jão!
            No CREAS Leléo passava por psicóloga, assistente social e participava de oficinas culturais duas vezes por semana, como parte do acompanhamento do processo de liberdade assistida.
            - Agora voltei a estudar. Nuss cê fala que saiu da FEBEM, chove de novinha em cima.
            Leléo das novinha colava nas oficinas com uma barra forte que o pai usava para recolher reciclados, a chamava de hornet. E nas longas tardes quentes de conversas intermináveis quando o café tardava, ele logo gritava.
            - Oh cadê o rango dos menor?
            Assim Leléo das novinha engravidara a primeira que encontrara ao sair da fundação casa. Outro dia nos encontramos por acaso em um destes botecos de copo sujo e cerveja gelada.

            - E ae Jhow locão! Como tá a caminhada? Eu paguei o que devia, nasceu meu neguinho e tô trampando de pintor. Juntando uma grana para comprar um fuscão. Vou nessa amanha tenho de acordar cedo.                                                                                                          
                                                                                                                                                                                                                                                                                             Joey é escritor autodidata.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Socorro!


            Por favor, me ajudem a entender. É uma súplica da dúvida, pois ainda insisto em indagar. Durante a semana é dieta “gourmet fit” e aos finais de semana gasta o valor do salário da empregada na pizzaria. Cultua o corpo e atrofia a mente. Vai de carro a academia, pedalar na bicicleta ergométrica. Na volta insulta o tiozinho de barra forte que esta voltando do trabalho cansado da vida em seu único meio de transporte.
            Paga um salário de miséria para a Dona Maria lavar, passar, cozinhar, faxinar, e cuidar dos filhos. O mesmo que investe para praticar “Cross training” para perder calorias e moldar o corpo e se encaixar nos padrões impostos pela ditadura da beleza.
            A última é reclamar das mudanças nas leis trabalhistas de empregadas domésticas. Acha o cúmulo do absurdo ter de pagar fundo de garantia e registro em carteira de trabalho. Porém frauda o imposto de renda apresentando atestado médico falso.
            O filho menor da Dona Maria caiu na biqueira e agora esta na Fundação Casa, em uma cidade muito distante. Enquanto a liberdade não cantar ele não vai receber visita da mãe. Pois se faltar ao trabalho é demissão na certa. Quando a liberdade cantar para o Junior ele vai sair sem saber ler e escrever, mas pós-graduado no crime. Pois esta instituição não ressocializa e sim criminaliza.
            Sorte da madame, patroa da Dona Maria. Que o Junior só não almeja tomar de assalto o casarão. Por que é dali que sai o sustento do barraco. Pois se encanar em tacar o terror e fazer a fita. Não há guarita com segurança, alambrado, cerca elétrica e circuito interno que segure o veneno que borbulha nas veias de cada menino que corre nos becos e vielas deste país.



Joey é escritor autodidata.

domingo, 3 de janeiro de 2016

O silêncio ainda que tarda.

              
            Em um lapso o silêncio é quebrado com a cantoria da igreja evangélica ou com a gritaria do vai curintiá! O mesmo ópio com doses cavalares diferentes, usando muletas semelhantes.
            Como é triste presenciar o silêncio dolorido da criança com sete anos de idade que contraiu HIV sofrendo abuso do padrasto. O silêncio virtual é um luto contra a ignorância alheia que tomou conta das redes sociais. O silêncio neste ambiente gera insatisfação, pois não postar, curtir e compartilhar é considerado anomalia virtual, quase um pecado tecnológico.
            Nem diálogos com os que se dizem entendidos é possível. Pois estes não são capazes de conterem seu silêncio e vociferam superioridade com retóricas contraditórias. A forma de exteriorizar o meu silêncio é a escrita, que por sinal é lida por poucos. Pois esta geração esta habituada a cento e quarenta caracteres.
            Não se ensina aos gritos, mas aprende-se muito com o silêncio. Aprendi as duras penas que o silêncio é sinônimo de indiferença, e esta ultimamente anda fazendo toda diferença. Meu silêncio não me faz cúmplice, assim como também não quer dizer que eu não esteja conspirando contra a própria vida. Enfim, já dizia Confúcio. “O silêncio é um amigo que nunca trai”.
           O silêncio é um direito que ultimamente deveria se tornar um dever. Quebrar o silêncio deveria ser crime inafiançável. Condenado ao silêncio eterno. Sartre afirmava que “O inferno são os outros” e são eles que insistem a todo custo em violar o silêncio alheio. Afinal, para que gritar para um mundo surdo? Gostaria de pedir apenas um século de silêncio !Im memorian do próprio.


Joey é escritor autodidata.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Cyber Quebrada


            Não faz muito tempo que as “Lan House” e “Cyber café” invadiram as periferias, substituindo os fliperamas. Um amontoado de bicicletas em frente ao estabelecimento que mais parecia um pátio de escola, pelos gritos de euforia em meio a jogos virtuais, Orkut, msn e sala de bate papo.
            - Põe mais dois real ai tio!
            - Sem gritaria. Aqui é lugar de respeito!
            - Tio quer comparar isso aqui com igreja é ?
            Porém com o “boom” tecnológico da telefonia móvel atrelado a internet móvel, planos e facilidades para adquirir lap tops, tablets e celulares. A quebrada foi literalmente inundada por estas tecnologias e paulatinamente a Cyber fora esvaziada e quebrada.
            A Cyber fora quebrada e a função virtualizada. E por lembrar em celular, estes fazem parte da rotina da maioria das escolas. E rola de tudo: selfie, nudes, vídeos em banheiro, tretas virtuais, ameaça de morte, redes sociais, bluetooth, compartilhamento de vídeos, músicas e uma infinidade de aplicativos, menos algo relacionado a aprendizagem.
            - Ae Jão qual o seu maior sonho?
            - Ah fessor, é ter um Moto G de ultima geração e assinatura do Netflix. Ae sim eu seria feliz.
            Triste geração que até os sonhos foram virtualizados. As relações sociais também virtualizaram e a escola se mantém retrógrada e obsoleta em uma concorrência desleal com o mundo tecnológico que vive em constantes transformações.
            Putz, esta acabando a bateria do smarthfone e vou postar este texto só amanha. Porém vou aproveitar um Wi Fi alheio. Ah este mundo pós moderno.

Joey é escritor autodidata

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Um dia qualquer não importa qual seja a escola!


            Como canta Racionais “periferia é periferia em qualquer lugar” e escola de periferia também é escola de periferia em qualquer lugar. Assim me aproximo mais um dia da escola que trampo. Ou como diria os próprios alunos. Você trabalha ou só dá aula?
- Salve Joey! E essa bike ai? Cabulosa heim!
- Esta salvo! Ou melhor, é tá salvado que fala né!
             Saída dos alunos e professores do período da manhã e a entrada dos da tarde é aquela função. Bicicleta que sai bicicleta que entra. Entre gritarias e assovios que agitam a rotina do dia a dia. Porém desde que leciono sempre me indago por que alguns alunos - e estes não são poucos- sempre chegam bem mais cedo do que os demais que na sua esmagadora maioria vem na sola.
- Salve Joey! E essa peita ai? Das loka heim!
- Tá salvado!
            Chinelo de dedo branco remendado com clips que ganhou da inspetora, bermuda de tactel estampado do irmão e camiseta branca encardida. É assim que a maioria deles vão chegando, chegando e não para mais. Indo em direção ao refeitório tomar suco e comer bolacha.
- Oh tia! Rola pegar um pouco mais pra comer depois?
- Pode sim menino.
- Agradece!
            O sinal é o limite entre deixar de comer e ir para a sala de aula. Mochila fodida, ganhada da patroa da mãe, toda customizada com frases escritas de corretivo e coloridas de canetinhas. Logo a professora pergunta.
- Onde esta o seu material?
- Material? Para que material, se eu venho na escola para comer!
            Sem palavras a professora pede silêncio e inicia sua chamada. Em seguida anota a pauta no quadro. Calejada pelos anos que leciona não seria agora que iria se sensibilizar por ouvir que um aluno vai à escola pela merenda. Hora do intervalo é sagrada, pois é a hora de matar a fome que para muitos a única alimentação do dia. Portanto é aquela correria para colar na fila da merenda e conferir o que tem para comer repetidas vezes, e ainda sobrar um tempo pra correr de um lado para o outro.
- Salve Joey! Vai bater um rango ai com nóis.  
- Tá salvado! Tô colando.
- Tia coloca mais um pouco ai.
- Você pode repetir menino.
- Pô entrar na fila outra vez é osso, faz essa vai.
             O governador inventou as “Escolas Gourmet”, escolas do tempo integral, lá segundo eles tudo é melhor. Têm duas merendas, professores mais bem pagos, educação de qualidade. E nas periferias as “Escolas Diet Fit”, onde fecham salas, e superlotam outras, onde professores não recebem o mesmo e os cortes continuam para ajustar o orçamento. Em suma, a escola passa por uma dieta rigorosa de recursos e quem nela trabalha, sai de lá com o mesmo sentimento de sair de uma academia, porém com a cabeça a milhão.
- Salve Joey! Tó uma bala ai parsa.
- Tá salvado! Opa agradece.
- O que você aprendeu hoje na escola?
- Ah que caqui é um tomate doce e que almeirão é uma alface amarga.
            Estes sentem cotidianamente o amargo da vida tomar conta de sua doce infância.
- E a tabuada?
- Que tabuada o que. Hoje comi cinco vezes.
- Estava bom o rango?
- Ah não estava, mas comi do mesmo jeito.  Ce é loko, dormir com fome é osso.
            Ou seja, rola uma sinceridade intrínseca na molecada. Jogam a real do porque estão ali. Alguns nunca faltam, porque se ficam em casa tem de fazer serviços domésticos e não tem o que comer. O brincar na escola é o brinde depois de se alimentar. Logo ele tem de ouvir da professora.
- Menino, educação vem de berço!
- Sora. O que é berço?
- Lugar onde criança dorme.
- Mas eu durmo com meus dois irmãos e mais quatro primos em um colchão no chão, porque a casa só tem cozinha, banheiro e quarto.
            Como explicar a diferença entre educação familiar e educação bancária oferecida na rede pública de ensino para o menino?

- Salve Joey! Deixa eu dar um role nessa Bike ai.
- Tá salvado! Qualquer dia deste você anda.

            É assim que muitos deles voltam para casa, de barriga cheia e cabeça vazia. Dorme para esquecer o sofrimento, mas a fome o acorda para um pesadelo chamado vida.
Joey é escritor Autodidata. 

sábado, 14 de novembro de 2015

Um sábado a mais!


            O governador inventou um tal de reorganização, porém de forma desorganizada. Às pressas fecha escolar e realoca alunos gerando insegurança em professores e na população.
            A última, é obrigar professores trabalharem aos sábados. Leio nos meios de comunicação o lema “Pátria Educadora”, porém que pátria é esta que no primeiro aceno de crise corta na carne os investimentos na educação? Reunião de pais em escola da quebrada é o maior barato, de sábado nem se fala e com desorganização fica transcendental.
            Avisar os tiozinhos que uma ponte divide um bairro da escola e por isso o filho terá de estudar em outra escola, muito mais distante de sua casa. A esmagadora maioria destes são pessoas simples, sem instrução, que não sabem si quer, a série que o filho estuda, não indagam nada.
            - Só sei que ele estuda nesta escola a tarde, agora a sala eu não sei.
            - Por que eles estão mudando de escola?
            Não me atrevo a explicar os malabarismos desastrosos efetuados nos últimos vinte anos, sabe por quê? Pois a tiazinha quer colocar o dedo no tinteiro de carimbo, passar na folha e ir para casa cuidar dos afazeres domésticos.
            - Mas por que mesmo que o Junior vai mudar de escola?
            -Senhora para renovar a matrícula, preciso que traga  Xerox do RG, comprovante de residência e duas fotos 3X4.
            - RG ele não tem, onde tira isso? Comprovante de residência, eu mudei e ainda não chegou nenhuma conta e olha que conta é o que mais tem pra pagar. Agora o retrato, quando “for na” cidade, ele tira.
            A quebrada é tão distante do centro que nem é considerada cidade. Longe dos serviços públicos básicos, sem correio, caixa eletrônico, pronto-socorro. Agora igrejas evangélicas, bares e biqueiras concorrem pelas pobres almas que ali subvivem.
            - Discurpa perguntá! Por que ele vai ter de mudar de escola?
            - Vai mudar de escola pelo mesmo motivo que os professores não receberam reajuste salarial este ano.
            - E qual o motivo fessor?
            - Porque o governador quer!
            - Mas quer o que?
            - Quer acabar com a educação e em contra partida construir presídios.
            - Então o Junior, ano que vem vai estudar na escola do morro!

            O Junior que na certidão de nascimento não tem pai, em breve também corre o risco de não ter escola, e se não ter escola é sinônimo que também não tenha comida, e eu não sei se vivo ou morro de pena desse povo sofrido! 

Joey é escritor autodidata.